Absorvente

Fiquei pálido: a folha sulfite me condenava.

Há meses aquela tontura, aquele enjôo, aquele mal-estar, aquela dor de cabeça. Nunca me queixei, nem com minha mulher. As pontadas, cada vez mais frequentes, me paralisavam por instantes e, ordinárias, sumiam. E sempre aquele daqui-a-pouco-passa.
Tivesse dado atenção antes, salvaria minha vida?

Seis meses de casado (e planos recém-nascidos): ela, o que vai dizer?

O papel com o resultado do exame impresso é como meu atestado de semi-óbito; um relatório preciso da minha débil saúde; a minha falência. O diagnóstico da semi-vida que me aguarda. Este papel – que eu sinto, que eu dobro, que eu rasgo, que eu choro – me põe fim. E ainda que eu o queime, enquanto eu existir, ele existirá.

Uma boa alternativa para imprimir o destino da vida, em vez de centésimos rigorosamente alarmantes, seria laudar o resultado assim: ‘Quase: Carpem Diem’. Ou então: ‘Não deixe para amanhã o que pode fazer hoje (testamentos, inclusive)’. Vou sugerir.

Outra dica: receber resultado de exame dentro de um envelope lacrado é (ainda mais) desesperador. Afinal, que boa notícia precisaria de discrição ou eufemismo?

Minha mulher, quando casamos, quis engravidar. Mas, antes disso, precisávamos tirar aquelas férias na Patagônia, aproveitar ao máximo os jantares dançantes do clube, programar um camping, quitar o carro: viver uma vida a dois. Que está ótima! Não tinha do que reclamar.

Vou chegar em casa hoje como se nada tivesse ocorrido. Assoviando. Como se o trânsito estivesse péssimo, o porteiro estivesse fúnebre, o clima estivesse ameno. Como se nunca tivesse feito exames. E então, se ela também estiver como se nada tivesse ocorrido, eu comento que o médico da empresa pediu uma bateria de exames. Checape, para todos. Protocolo, tem que fazer. Alcança o arroz? Pois é, mas você vai ver, vai dar tudo certo. Até o colesterol.

Minha mulher sempre, sempre quis filhos. Nunca planejamos mais que um, mas ela tem cara de quem quer três. Casa cheia, brinquedos no chão, muita correria e um punhado de sorrisos. Que seja um: será esse o melhor ou o pior momento para gerar uma vida? E se nove meses for muito tempo?

Na minha família, é comum a tradição de os avós comprarem o terno para a formatura do neto. Foi assim comigo, com meus irmãos, meus primos… Presume-se que a vida, interrompida antes dos setenta ou oitenta, ficou pela metade.

E a minha parada prematura já foi anunciada. Por um papel. Aliás, sempre julguei ter mais vida que um papel. Afinal, é o trabalho do homem quem corta a árvore, é o homem quem o prepara, quem o corta, quem o encaderna, quem o usa e quem apoteoticamente o descarta. Mas o Soberano diz o contrário: já bati seta, estou entrando no acostamento. Fim de linha, segundo o papel rosado com uma logo bordô, cor de sangue, de movimento circular.

Ou deixo para minha mulher meus discos e livros e nada mais – o potencialmente obsoleto e anacrônico, que ela na certa esgotará na minha ausência; ou deixo para ela todo o meu eu investido dentro dela, dentro do seu coração, dentro do mundo que resta, dentro da nossa casa.

Mas e se nove meses for tempo demais para o imperativo?

Resolvi melhor. Perguntei a ela:

– Amor, quantos filhos você quer?

– Um.

Então eu a abracei como se nunca mais pudesse tê-la nos braços. E, sendo homem, grafarei sobre o papel: Junior.

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~ por Carlos Pegurski em setembro 15, 2012.

Uma resposta to “Absorvente”

  1. ou Sandy…

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