A dialética Política x Futebol e a formação do “petista sofredor”

Não é de hoje que as relações entre futebol e política são estreitas. Neste texto breve, o camarada Adelto Gonçalves pincela como o esporte bretão foi, ao longo do século passado, instrumento de resistência política e de manutenção de um estatuto social em diversos pontos do globo. Afinal, o mais popular dos esportes é significativo demais para passar imune aos discursos de uma época, inclusive a atual. Como lembra Gonçalves, em tempos de globalização, em que a nova ordem financeira internacional alimenta-se da pobreza humana e da destruição do ambiente natural, mais do que nunca, o “colonialismo de mercado” domina o futebol. (…) Quer dizer, o futebol continua a servir a poderes opressivos, ainda que os opressores usem palavras suaves.

E há também no futebol, claro, quem use de palavras duras para ser suave. O melhor exemplo que me vem à mente é o saudoso Dr. Sócrates, que protagonizou a democracia corinthiana ainda no início dos anos oitenta. Jogadores e Cartolas tinham o mesmo peso para tomar decisões relativas ao clube. Como o próprio Sócrates relatou certa vez, sempre lutei pelo voto direto e continuo a acreditar ser esse o melhor meio de avaliação democrática. Com ele respeita-se a alternância de poder, tão necessária, principalmente naqueles tempos de ditadura militar. Era doutor muito além da medicina.

Parece impensável que isso aconteça em um time de futebol, sobretudo num clube de primeiro escalão, mas colaborou a favor, além de aspectos institucionais, o clima da época: ainda sob a ditadura militar, como a fala do Dr. Sócrates recorda, o país transpirava resistência. Febril, a sociedade já se medicava contra os agentes autoimunes que a consumiam. E nada melhor que a boa e velha medicina popular…

Aproximadamente à mesma época da democracia corinthiana surgia o PT. Entre seus fundadores, diversos corinthianos e, entre eles, um corinthiano especial, que viria a ser o mais notório das nações: um tal de Lula. E aí me questiono: que a política alimenta o futebol, já vimos; mas em que medida o futebol alimenta a política?

Comecemos pelo simples: a política ainda não é exatamente preferência nacional. Senão por momentos de participação em massa, em que a população opera como uma turba uníssona, a política não costuma ter ampla participação social. Para que o PT tenha se tornado no fenômeno que é hoje, houve muitos fatores que deram um empurrãozinho, como o apoio da ala progressista de algumas igrejas e dos movimentos sindicais. Precisaríamos de uma análise mais cuidadosa, mas quero crer que o fato de o Corinthians entrar em campo com mensagens políticas na camisa na efervescência dos anos 1982 e 1983, como uma chamada para as Diretas Já, ajudou a chamar a atenção da população para algumas pautas políticas que o PT já encabeçava.

E deu certo. Contra muitos prognósticos, o PT chegou lá. É a utopia que deu certo. Com uma lacuna de pouco mais de dez anos, trata-se da Libertadores corinthiana: quem diria?

Porém, embora as eleições presidenciais sejam mais fáceis aceitando investimentos duvidosos, resta o ônus do pragmatismo. Nesse sentido eu me solidarizo ao petista old school, aquele cara que construiu sua própria biografia na franja da história do partido, militou a vida toda para eleger o Lula e hoje tem dificuldade de defender o governo por aí. Este é ponto nevrálgico da dialética PT x Corinthians: ninguém sofre mais com o PT do que o petista. Convenhamos, precisa de uma contribuição corinthiana mais evidente?

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~ por Carlos Pegurski em setembro 25, 2012.

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