A razão da academia

– E me diga: quais os fatores condicionantes da identidade de gênero de um indivíduo que não são sociais, Dalton?

A professora de sociologia ficara brava. Falava devagarinho, degustando as palavras, assumindo combate. Culpa do Dalton, que julgou que um transexual poderia fazer essa cirurgia por ímpeto sensacionalista, “capricho pessoal”, para chocar. E, para ele, isso seria meramente psicológico. Para ela, meramente psicologizante:

– Ainda que o que você inventou seja verdade, isso não é evidentemente social, Dalton?

O Dalton estava convicto de que não: era psicológico. Ou melhor, psicopatológico.

– Não, professora. Seria uma opção pessoal.

Ela fez cara de paciência, muito impacientemente, e encerrou:

– Vamos acabar com essa discussão antes que o Dalton termine de perder os cabelos.

E um tanto satisfeita pelas risadas que brotaram, mentiu:

– Não leve a mal Dalton. Nada pessoal.

Pois demorou mas veio. A professora falava, dias depóis, dos seminários feministas a partir dos anos 60 que discutiam o espaço da mulher na Ciência:

– Vocês sabiam que foi uma mulher quem inventou o parabrisa? E que teve muita dificuldade em patenteá-lo porque os homens diziam que com aquele bracinho se mexendo os motoristas ficariam tontos?

– Não seriam os limpadores de parabrisa, professora? – corrigiu o Dalton.

– Isso. Gafe minha. Perdoem.

O Dalton não perdoou:

– Se bem que não seria de estranhar: o parabrisa ajuda a não estragar o penteado.

Anúncios

~ por Carlos Pegurski em outubro 14, 2012.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

 
%d blogueiros gostam disto: