Gravata

Trabalhou como nunca mais uma vez. Chegou em casa, sentou-se no sofá, sorriu (sentiu cheiro de café) e afrouxou a maldita gravata bordô, uniforme da empresa, que pendia austera sob o semblante acabado. Chamou: “quem é que vai dar um beijo no papai?” Tentou novamente: “quem é que vai querer saber o que o papai trouxe hoje?” Nada. Apelou: “quem é que vai jogar vídeo game com o papai?” Ricardo e Júlia desgrudaram os olhos viciados da tela e mesmo antes de largar os controles no chão já correram ao encontro de Régis, agora de joelhos, que recebia tantos beijos que nem se lembrava mais dos problemas que tivera pendurados no pescoço durante o dia.

Mas que quartos eram esses? Quem arrumasse primeiro o seu – não vale, a cama da Júlia é menor! – escolheria qual o cedê que jogariam. Zupt, de pronto se ouvia o estardalhaço dos objetos mal-arrumados com pressa pelos vultos infantis.

Lídia de novo no banho. De novo isso. Desde o dia em que ele sugeriu que a madalena estava ligeiramente sem sal, amorzinho, Lídia começou uma verdadeira disciplina de boicotes. Um deles, tomar banho no horário de Régis, e ficava, e ficava, esquecia da vida. E esquecia mesmo; ela lá dentro consigo pensando consigo nas coisas dela com os cosméticos dela. Paciência, Régis, paciência. Afinal, não era essa a casa por que sonhara um dia e o dia todo? Paciência, Régis.

Sozinho no quarto, ouvindo o chuveiro, sentou na cama e lembrou da época em que namoravam, da música deles – bonita mesmo, admitia Régis. Lembrou do medo do sogro, dos olhos grossos da sogra, daquele dia em que passou quatro horas debaixo da cama da Lídia até poder sair! Quando é que sairia debaixo da cama?, pensou. E chorou.

Quando Lídia saiu do banho com mil perfumes e toda a sorte de elixires da juventude empotados – neologismo autorizado para revendas autorizadas -, encontrou uma casa diferente. As crianças, estavam quietas, a casa tranqüila e um cheiro, um cheiro, do que era mesmo? Era comida.

“Estão mexendo no fogão? Esperem até o pai de vocês ver isso!”. Lídia veio à copa voando, pensando quantas vezes já não dissera aquilo. Encontrou uma mesa pronta, uma casa enfim ajeitadinha, uma música tocando ao fundo (Elton John, a música deles! Será que Régis… será?) e duas ou três pessoas amadas sorrindo umas às outras sentadas feito índio na frente da televisão da sala. É bem verdade que Júlia de súbito não gostou da idéia de jogar aquele jogo de carrinhos, coisa do Ricardo, mas o pai deixou ela escolher o carro em que ele correria – não é que tinha um carro rosa? –, e escolheu um carro rosa. E os três foram um só naquele momento, uma família.

Tal era a adrenalina de cada ultrapassada, cada desafio vencido, a concentração, que os três não ouviram Lídia que voltou para o quarto desconsertada. A cena não saía da cabeça: Régis com as crianças como ela não conseguia. E chorou, por bastante tempo.
Minutos mais tarde, Régis entrou no quarto e a viu chorando. Abraçou Lídia e disse que o que quer que fosse, acabaria com o jantar. Ela chegou a sentir raiva dele.

Enquanto Régis tomava banho, a mãe perguntou às crianças se poderia jogar também, timidamente. Sem tirar o olho da tevê, a pequena Júlia disse que sim. E disse que estava com fome. Ricardo também estava.

Como é que ele se atrevia? Desligou a música com asco dissimulado e começou o jantar, batendo as panelas, as portas, as louças. Lídia passou a mão no pescoço e quase sentiu a gravata, odiando Régis.

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~ por Carlos Pegurski em outubro 29, 2012.

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