Dez ilusões

•outubro 12, 2012 • Deixe um comentário

Choro nostradâmico
revida ao tapa do berço
silencia o mundo

Panela vazia
caixa de repercussão
afina o instrumento

Infância no morro
pipa caindo, pelada
vida corre atrás

A vida no céu
desde o chão até às nuvens
tem forma de cão

Estrelas cadentes
cruzam olhos assustados
em balas amargas

O avião destino
raspa a estrela com a asa
pulveriza o pó

À pele e descalço
luta se esquiva se esconde
o inverno descobre

Aqui já o menino
empenhou a vida, única
escapou do vento

Aqui jaz o frio
que adormeceu e cobriu
menino de terra

Vidas são moeda
letras e palavras não
são bem mais que isso

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À volta

•outubro 9, 2012 • Deixe um comentário

Meu relógio

tua ausência imperdoável

teu silêncio

um desaforo

tua displicência programada

a raiva que me vem e parte

teu jogo de quase

a palavra sempre a menos

o eco

me rezam uma agonia surda

a um correr de olhos à volta

por te esperar dentro de mim.

Solitária

•outubro 8, 2012 • Deixe um comentário

Apago as luzes.

Tapeio as paredes encardidas
mofadas
acenando ao verde
bolinhas
displicentemente.

Perdido
ilhado
feito de mudança caído.

Brinco de carro
de gueime
de casinha
apertada de filhos
de esperanças e de carnês.
Se não amanhã,
amanhã melhora.

Apago as luzes.
Entro na solitária:
condenação perpétua.

Apago as luzes.

Meu filho me chama à razão:
– Pai, quer brincar?

Cansado.

Clique.

Yes, nós temos esquerda

•outubro 6, 2012 • 1 Comentário

Hoje meu beijo vai para a Patrícia Paixão, aquela linda. Para quem não sabe quem é a Patrícia Paixão (assim como eu continuo sem saber), ela assina um texto curto e preciso no Observatório de Imprensa sobre a mentira que é o fim da esquerda e da direita. Esse tema é recorrente e nos leva a algumas questões importantes. Afinal, de onde vem esse papo? E, sobretudo, a quem interessa?

Como a Patrícia ressalta, subsidiada pelo Bobbio, afirmar que a esquerda e a direita perderam o sentido significa homogeneizá-las com um fim determinado. É proposital, e não um engano. E a esquerda sai em franca desvantagem nessa suposta diluição ideológica por um fator simples: a direita triunfou. Se no campo das ideias a esquerda permanece viva e fecunda, no campo prático ela foi relegada mais uma vez ao papel de oposição, de projeto marginal. Prova disso é que, após o fim da União Soviética, o mundo viveu uma onda de ultracapitalismo, protagonizado pelo projeto neoliberal. Exceto pela realidade latinamericana, que ainda veremos, se deslegitimarmos o campo das ideias resta apenas o campo do pragmatismo, essencialmente “endireitado”.

No embate para permanecer na arena discursiva, a esquerda tem alguns desafios. O primeiro é provar que é capaz de dar conta do mundo atual. Um exemplo claro é a transformação do perfil do trabalhador. O termo operário, por exemplo, é um conceito congelado: quem é o operário de hoje, senão o atendente de telemarketing (que não se entende como tal)? Precisamos nos mostrar hábeis o suficiente para compreender as nuances desse novo mundo (pós-moderno, hipermoderno, transmoderno, liquidamente moderno…), negá-lo e, ao mesmo tempo, oferecer uma saída. Sim, a geografia política mudou. Sim, as pautas não são as mesmas. Sim, os discursos políticos precisam ser atualizados. Contudo, a lógica de opressão política e financeira permanece viva. A essência da esquerda mais do que nunca tem sua razão de ser e devemos nos afirmar como caminho político.

O segundo desafio, creio, seja fazer uma auto-crítica em tempo real. Quando digo que vou votar no Bruno Meirinho, candidato do PSOL, imediatamente surgem críticas mais ou menos justas às experiências socialistas (ou ditas socialistas). E elas se nutrem não apenas das experiências soviética e cubana, mas também dos governos Chavez e Moralez, por exemplo. Os insucessos dos governos de esquerda que a América Latina elegeu, ou as falácias midiáticas de insucesso, novamente são tratados como fenômenos definitivos para refutar o pensamento de esquerda. Isso fica muito evidente no caso brasileiro: o maior partido de esquerda latinamericano chegou ao poder e fracassou, ideologicamente. Se hoje a própria esquerda está fragmentada e vive uma crise de identidade (ficar no PT? Ir para o PSOL ou PSTU? Migrar para uma terceira via, como o PV?), torna-se fácil entender como a direita de pronto sentencia seu fim.

 Existe, ainda, um terceiro desafio que, ao meu ver, é o mais importante: formar uma estrutura de comunicação de massa que seja ideologicamente orientada à esquerda. Essa questão, em última análise, permitirá ou não o resgate e o triunfo ideológico dos projetos progressistas e por isso mesmo é o maior embate que se apresenta. Afinal, a estrutura de radiodifusão brasileira está parasitada pela elite econômica, que consegue perpetuar seu projeto político graças à manipulação da agenda social. E isso não significa ideologizar a mídia brasileira! Ora, existe algo mais ideológico que o leblonismo do Manoel Carlos ou o “isto é uma vergonha” do Bóris Casói? O que se faz necessário é animar canais de massa com projetos populares, com os movimentos sociais, com as centrais sindicais, com manifestações culturais de resistência…

Não existe lacuna de poder: atrás da mentira da morte das ideologias se esconde quem se nutre desse discurso. É por isso que a esquerda continua acenando como um caminho viável. É por isso que, apesar das páginas dignamente escritas pelo PT nas últimas décadas, hoje ele se mostra no mínimo insuficiente. É por isso que precisamos construir um novo arranjo político, que abrigue os projetos de esquerda e fomente essas centelhas na sociedade. É por isso que precisamos de partidos de fato alinhados à esquerda, que se alimentem da organização popular e assumam essa vocação. E é por isso, enfim, que nos é imperativo dizer: yes, nós temos esquerda.

Curitiba precisa do PSOL na Casa do Povo!

•outubro 3, 2012 • 2 Comentários

O grande sambista Cartola trabalhava como pedreiro. Cartola construía. Dentre os seus sambas, gosto especialmente de um chamado Sala de Recepção: habitada por gente simples e tão pobre, que só tem o sol, que a todos cobre, como podes, Mangueira, cantar?

Numa sociedade justa, todos teríamos um lar. Bastaria trabalhar para termos uma moradia digna. Em certa medida, necessitamos tanto de moradia quanto de alimentação: trata-se de uma questão primária para a manutenção da vida, dentro do mínimo padrão de conforto e segurança.

No mundo real, onde a palavra justiça frequentemente não tem onde repousar, há quem só tenha, de fato, o sol que a todos cobre. Aliás, não apenas há quem não tenha um teto, mas outras pessoas acumulam tetos conforme seu desejo, e não conforme sua necessidade. Aqueles que não são usados diretamente são alugados para outras pessoas que não têm casa e podem pagar por ele. Se não há quem pague, esses tetos permanecem ocos. E esse sistema tende a, cada vez mais, fazer com que haja mais tetos sem um lar e mais lares sem um teto.

Porque, mesmo que não haja um teto disponível, haverá um lar. Haverá uma família. E essa família, assim como precisa se alimentar, precisa também de uma casa. É por isso que o Movimento Popular por Moradia, que faz parte da Frente Nacional de Resistência Urbana, ocupou um terreno abandonado em Curitiba há menos de uma semana. Fomentado pela militância do PSOL, esse movimento entende que deve haver casa para todos: anterior ao fato de alguém possuir um amplo terreno inabitado está o direito de diversas famílias possuírem uma casa. Nesta ocupação, não uma, mas 300 pessoas passaram, ainda que de forma precária e provisória, a dormir sob um teto.

Sabemos que é função do Estado prover moradia para os cidadãos. Para além de uma questão legal, trata-se de um imperativo moral: essas famílias que ainda brigam para ter um teto são compostas por trabalhadores e trabalhadoras. É inadmissível que a miséria dessas pessoas nos soe estranha, alheia a nós. E é tanto mais inadmissível que nossos representantes no Estado sejam coniventes com a ausência de moradia digna – desconsiderando aqui, ainda, o recorrente vínculo entre esses representantes e os setores da especulação imobiliária.

Neste texto, publicado há pouco mais de três meses, o jornalista Rogério Galindo registra a diferença no tratamento da Prefeitura para com moradores do Capão Raso e do Batel: aqueles que façam suas próprias calçadas; estes as ganharão, em alto padrão. Galindo completa: os R$ 3,5 milhões que serão consumidos pelas calçadas do Batel são equivalentes a três vezes e meia o valor que a prefeitura e os vereadores destinaram à Cohab, em 2012, para o reassentamento de famílias em áreas irregulares.

É ultrajante que ainda tenhamos que lutar para que os trabalhadores tenham uma casa. É indignante que sustentemos representantes que trabalhem contra nós, trabalhadores. E é ainda mais indignante que os vereadores, que compõem a Casa do Povo, não se dediquem a fiscalizar e cobrar da Prefeitura a implementação de políticas públicas que resolvam uma demanda séria como a da habitação. Tão grave quanto à inoperância do Executivo é a subserviência do Legislativo curitibano. Em se tratando de “políticas de habitação”, convenhamos: nossos vereadores (mesmo os ditos de esquerda) não têm feito mais do que tapar buraco nas ruas ou dar nome às que surgem.

Habitada por gente simples e tão pobre, que só tem o sol, que a todos cobre, como podes, Curitiba, cantar?

O poeta Thiago de Mello, que redigiu o Estatuto do Homem, responde:

Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Nosso sol, o ainda tímido sol de Curitiba, canta e resiste. A Casa do Povo precisa garantir o sol das manhãs vindouras e, felizmente, brilha em Curitiba um novo sol que nos esquenta. Felizmente, temos o PSOL. Felizmente, a Casa do Povo pode ser mais amarela.

Neste domingo, escolha um candidato a vereador do PSOL ou vote na legenda do partido. Estes sim nos representam!

 

 

Ouça aquilo que eu não digo

•outubro 1, 2012 • 1 Comentário

Não é preciso dizer muito:

o pouco basta.

Basta o convite

o silêncio-que-diz-sim

e esses espaços quilométricos

entre essa

e esta linha.

A dialética Política x Futebol e a formação do “petista sofredor”

•setembro 25, 2012 • Deixe um comentário

Não é de hoje que as relações entre futebol e política são estreitas. Neste texto breve, o camarada Adelto Gonçalves pincela como o esporte bretão foi, ao longo do século passado, instrumento de resistência política e de manutenção de um estatuto social em diversos pontos do globo. Afinal, o mais popular dos esportes é significativo demais para passar imune aos discursos de uma época, inclusive a atual. Como lembra Gonçalves, em tempos de globalização, em que a nova ordem financeira internacional alimenta-se da pobreza humana e da destruição do ambiente natural, mais do que nunca, o “colonialismo de mercado” domina o futebol. (…) Quer dizer, o futebol continua a servir a poderes opressivos, ainda que os opressores usem palavras suaves.

E há também no futebol, claro, quem use de palavras duras para ser suave. O melhor exemplo que me vem à mente é o saudoso Dr. Sócrates, que protagonizou a democracia corinthiana ainda no início dos anos oitenta. Jogadores e Cartolas tinham o mesmo peso para tomar decisões relativas ao clube. Como o próprio Sócrates relatou certa vez, sempre lutei pelo voto direto e continuo a acreditar ser esse o melhor meio de avaliação democrática. Com ele respeita-se a alternância de poder, tão necessária, principalmente naqueles tempos de ditadura militar. Era doutor muito além da medicina.

Parece impensável que isso aconteça em um time de futebol, sobretudo num clube de primeiro escalão, mas colaborou a favor, além de aspectos institucionais, o clima da época: ainda sob a ditadura militar, como a fala do Dr. Sócrates recorda, o país transpirava resistência. Febril, a sociedade já se medicava contra os agentes autoimunes que a consumiam. E nada melhor que a boa e velha medicina popular…

Aproximadamente à mesma época da democracia corinthiana surgia o PT. Entre seus fundadores, diversos corinthianos e, entre eles, um corinthiano especial, que viria a ser o mais notório das nações: um tal de Lula. E aí me questiono: que a política alimenta o futebol, já vimos; mas em que medida o futebol alimenta a política?

Comecemos pelo simples: a política ainda não é exatamente preferência nacional. Senão por momentos de participação em massa, em que a população opera como uma turba uníssona, a política não costuma ter ampla participação social. Para que o PT tenha se tornado no fenômeno que é hoje, houve muitos fatores que deram um empurrãozinho, como o apoio da ala progressista de algumas igrejas e dos movimentos sindicais. Precisaríamos de uma análise mais cuidadosa, mas quero crer que o fato de o Corinthians entrar em campo com mensagens políticas na camisa na efervescência dos anos 1982 e 1983, como uma chamada para as Diretas Já, ajudou a chamar a atenção da população para algumas pautas políticas que o PT já encabeçava.

E deu certo. Contra muitos prognósticos, o PT chegou lá. É a utopia que deu certo. Com uma lacuna de pouco mais de dez anos, trata-se da Libertadores corinthiana: quem diria?

Porém, embora as eleições presidenciais sejam mais fáceis aceitando investimentos duvidosos, resta o ônus do pragmatismo. Nesse sentido eu me solidarizo ao petista old school, aquele cara que construiu sua própria biografia na franja da história do partido, militou a vida toda para eleger o Lula e hoje tem dificuldade de defender o governo por aí. Este é ponto nevrálgico da dialética PT x Corinthians: ninguém sofre mais com o PT do que o petista. Convenhamos, precisa de uma contribuição corinthiana mais evidente?