Pânico

•novembro 6, 2012 • Deixe um comentário

Li no jornal que
estatísticas comprovam que
o medo das grandes cidades
e o descompasso
entre o aprendizado
e o aprendizado
de esperança
e sol
têm nome.

Um gráfico verde
contou que políticas
públicas
não curam
inumeradas
mentes humanas que
têm nome.

A lei da selva
tem espaço
entre nós
que matamos
um leão por dia
e isso também
tem nome.

Voltar pra casa
síndromizado
dever cumprido
é a bênção das
orações
encomendadas
pelas mães
e aquelas
têm nome.

Não saber onde
se está
tudo girar
tudo mudar
tudo mudo
e surdo
agora cego
nossos braços
ao céu caem
pedindo o que
tem nome.

Fiquei sabendo que
ser vítima de si
é triste
e coisa muito triste
mas acontece
nas melhores famílias
que
pasmem
têm nome.

A memória regressa
fraca
e tão medrosa
sobre a
sensação
de perda
de queda presa
tão vertical
e sem fórmula
tão fugaz
e de gravidade
indelével
tão patológica
e sem forma
com código
e outros efeitos
colaterais
subobservados que
por causas
ignoradas pelo lítio
têm nome.

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Gravata

•outubro 29, 2012 • Deixe um comentário

Trabalhou como nunca mais uma vez. Chegou em casa, sentou-se no sofá, sorriu (sentiu cheiro de café) e afrouxou a maldita gravata bordô, uniforme da empresa, que pendia austera sob o semblante acabado. Chamou: “quem é que vai dar um beijo no papai?” Tentou novamente: “quem é que vai querer saber o que o papai trouxe hoje?” Nada. Apelou: “quem é que vai jogar vídeo game com o papai?” Ricardo e Júlia desgrudaram os olhos viciados da tela e mesmo antes de largar os controles no chão já correram ao encontro de Régis, agora de joelhos, que recebia tantos beijos que nem se lembrava mais dos problemas que tivera pendurados no pescoço durante o dia.

Mas que quartos eram esses? Quem arrumasse primeiro o seu – não vale, a cama da Júlia é menor! – escolheria qual o cedê que jogariam. Zupt, de pronto se ouvia o estardalhaço dos objetos mal-arrumados com pressa pelos vultos infantis.

Lídia de novo no banho. De novo isso. Desde o dia em que ele sugeriu que a madalena estava ligeiramente sem sal, amorzinho, Lídia começou uma verdadeira disciplina de boicotes. Um deles, tomar banho no horário de Régis, e ficava, e ficava, esquecia da vida. E esquecia mesmo; ela lá dentro consigo pensando consigo nas coisas dela com os cosméticos dela. Paciência, Régis, paciência. Afinal, não era essa a casa por que sonhara um dia e o dia todo? Paciência, Régis.

Sozinho no quarto, ouvindo o chuveiro, sentou na cama e lembrou da época em que namoravam, da música deles – bonita mesmo, admitia Régis. Lembrou do medo do sogro, dos olhos grossos da sogra, daquele dia em que passou quatro horas debaixo da cama da Lídia até poder sair! Quando é que sairia debaixo da cama?, pensou. E chorou.

Quando Lídia saiu do banho com mil perfumes e toda a sorte de elixires da juventude empotados – neologismo autorizado para revendas autorizadas -, encontrou uma casa diferente. As crianças, estavam quietas, a casa tranqüila e um cheiro, um cheiro, do que era mesmo? Era comida.

“Estão mexendo no fogão? Esperem até o pai de vocês ver isso!”. Lídia veio à copa voando, pensando quantas vezes já não dissera aquilo. Encontrou uma mesa pronta, uma casa enfim ajeitadinha, uma música tocando ao fundo (Elton John, a música deles! Será que Régis… será?) e duas ou três pessoas amadas sorrindo umas às outras sentadas feito índio na frente da televisão da sala. É bem verdade que Júlia de súbito não gostou da idéia de jogar aquele jogo de carrinhos, coisa do Ricardo, mas o pai deixou ela escolher o carro em que ele correria – não é que tinha um carro rosa? –, e escolheu um carro rosa. E os três foram um só naquele momento, uma família.

Tal era a adrenalina de cada ultrapassada, cada desafio vencido, a concentração, que os três não ouviram Lídia que voltou para o quarto desconsertada. A cena não saía da cabeça: Régis com as crianças como ela não conseguia. E chorou, por bastante tempo.
Minutos mais tarde, Régis entrou no quarto e a viu chorando. Abraçou Lídia e disse que o que quer que fosse, acabaria com o jantar. Ela chegou a sentir raiva dele.

Enquanto Régis tomava banho, a mãe perguntou às crianças se poderia jogar também, timidamente. Sem tirar o olho da tevê, a pequena Júlia disse que sim. E disse que estava com fome. Ricardo também estava.

Como é que ele se atrevia? Desligou a música com asco dissimulado e começou o jantar, batendo as panelas, as portas, as louças. Lídia passou a mão no pescoço e quase sentiu a gravata, odiando Régis.

Parapeito

•outubro 23, 2012 • Deixe um comentário

Que eu vivo a vê-la já todos
veem – e vendo-o não me entendem.
Não conhecem pois não sentem:
pouco enxergam do Engodo.

Daí que o amante [o poeta]
é em si severa clausura:
o poema, da amargura,
é mostra vil e discreta.

Sequer o girassol – ela -,
enxerga luz sendo estrela:
carece de ver o Sol.

Pobre daquele que em prol
da Luz, sem ver seu farol,
fica à mercê da janela…

E o Verbo se fez Carne

•outubro 21, 2012 • Deixe um comentário

 

De como a Carne devolveu a regência ao Verbo

 

Convencionou qualquer coisa de inteligível, aprendeu a grafar, passou a viver em comunidades fixas, aprendeu a domesticar animais e a plantar seu pão e a dividi-lo e a explicar a natureza através de mitos. Terceirizou-se.

Ridicularizou o mítico, questionou a si mesmo, perguntou do mundo, pôs em cheque o visível, adivinhou o invisível, duvidou da existência, deu o Causal ao Altíssimo. Terceirizou-se.

Cantou aos céus, deitou-se às bússolas e astrolábios, imprimiu o sagrado com sangue, romanceou o opaco, rogou insurreições, ignorou verdades, incendiou as virtudes, dizimou espécies, reinventou a roda em anti-horário, quadriculou o Supremo, abraçou morais estranhas, crucificou oferendas. Terceirizou-se.

Gozou com o rígido, confeccionou nova ordem, entregou-se ao progresso, escreveu e leu e rezou e marchou em línguas tantas, manufaturou quitutes, desconheceu a ponta do nó, suou a vida e a morte, expurgou natos nus, ajoelhou em terras improdutivas, ordenhou enteléquias frias, robotizou a argila, postulou seus complexos, lutou pelo terço do dia, fugiu de casa a foguete, militou pela inveja, elegeu conjunturas, compreendeu-se só, arquivou o homem auto-suficiente. Terceirizou-se.

Esqueceu a função, competiu com a sombra, não viu Marte ao olho-nu, engarrafou o escapismo, quixoteou a ética, culpou o gem, enovelou o linear, casou com a virgem dos olhos de vidro, trapaceou o espelho, comprovou renda para adquirir liberdade sem limite disponível, indicou um psicotrópico, julgou-se máquina-bicho, injetou no ramo sintético. Terceirizou-se.

Detalhes

•outubro 19, 2012 • 1 Comentário

Conversava dia desses com uma amiga sobre a importância do cotidiano, das (supostamente) pequenas alegrias e das cores da vida. Afinal, a gente vive é de detalhes. Como diria o Geraldo Azevedo, o charme das canções são suas frases banais.

Lembro que há algum tempo, no trabalho, uma colega com seus 60 anos comentou:

– Hoje acordei tão atrasada que o Juarez nem teve tempo de me levar café na cama!

Lembrei daquela música:

Amanhã de manhã
vou pedir o café para nós dois
Te fazer um carinho e depois
te envolver em meus braços…

Perguntei, surpreso:

– Ele te leva café na cama?

Ela sorriu, habituada ao detalhe:

– Sim, todos os dias, há 37 anos.

É, Roberto Carlos, você vai me desculpar, mas ficou no chinelo. Romântico mesmo é o Seu Juarez.

A coqueluche

•outubro 17, 2012 • Deixe um comentário

O hábito de transportar questões sérias ao humor não é nenhuma novidade. Ao passo que pode ironizar, ridicularizar, provocar, a comédia pode também reduzir ao torpe, ao vulgar, ao estúpido. Assim, a qualidade da abordagem pode variar do genial ao medíocre.

De uns anos para cá, presenciamos o surgimento de uma nova coqueluche no humor: o estandape. Trata-se novamente do casamento do humor com discursos eminentemente políticos. E, registrado o fato de ser um caso que não responde pela totalidade do fenômeno, parece-me ser interessante encerrar a postagem com um vídeo que fala por si só. (Não sou nada fã do Roberto Justus, mas respeito o exposto nesse caso.)

 

 

 

 

A razão da academia

•outubro 14, 2012 • Deixe um comentário

– E me diga: quais os fatores condicionantes da identidade de gênero de um indivíduo que não são sociais, Dalton?

A professora de sociologia ficara brava. Falava devagarinho, degustando as palavras, assumindo combate. Culpa do Dalton, que julgou que um transexual poderia fazer essa cirurgia por ímpeto sensacionalista, “capricho pessoal”, para chocar. E, para ele, isso seria meramente psicológico. Para ela, meramente psicologizante:

– Ainda que o que você inventou seja verdade, isso não é evidentemente social, Dalton?

O Dalton estava convicto de que não: era psicológico. Ou melhor, psicopatológico.

– Não, professora. Seria uma opção pessoal.

Ela fez cara de paciência, muito impacientemente, e encerrou:

– Vamos acabar com essa discussão antes que o Dalton termine de perder os cabelos.

E um tanto satisfeita pelas risadas que brotaram, mentiu:

– Não leve a mal Dalton. Nada pessoal.

Pois demorou mas veio. A professora falava, dias depóis, dos seminários feministas a partir dos anos 60 que discutiam o espaço da mulher na Ciência:

– Vocês sabiam que foi uma mulher quem inventou o parabrisa? E que teve muita dificuldade em patenteá-lo porque os homens diziam que com aquele bracinho se mexendo os motoristas ficariam tontos?

– Não seriam os limpadores de parabrisa, professora? – corrigiu o Dalton.

– Isso. Gafe minha. Perdoem.

O Dalton não perdoou:

– Se bem que não seria de estranhar: o parabrisa ajuda a não estragar o penteado.